Não há maior fardo para uma criança do que a vida não vivida dos seus pais. (Jung)

Não há maior fardo para uma criança do que a vida não vivida dos seus pais. (Jung)

Não há maior fardo para uma criança do que a vida não vivida dos seus pais, Jung.

Essa afirmação do psicólogo suíço Carl Jung (1875-1961) permeou por um bom tempo meus pensamentos. E voltou a minha atenção novamente, quando encontrei um texto do também psicológo Omar Francisco Santos que refletia sobre a temática. Imediatamente transportei o pensamento aos meus atendimentos as familias.

Na minha poltrona ouço semanalmente afirmações de pais e mães verbalizando sofrimentos de seus filhos, emergindo assim a necessidade de uma demanda judicial familiar.

Em razão destas certezas, muitas vezes recorrem ao judiciário para afirmar suas alegações em detrimento de outro genitor, que ao seu julgar nada sabe ou não tem competência para “exercer o papel parental”. Surge um desejo de proteção da criança em relação ao outro, como se qualquer ação colocasse em perigo sua integridade.

Me questiono muitas vezes: até que ponto os pais sabem as consequências de disputas judiciais que permeiam a filiação.

Sabemos que a infância se caracteriza pela dependência da criança em relação ao mundo objetivo dos pais. Muitas vezes os pais depositam toda a atenção na dependência física uma vez que latente, mas a dependência psicológica é ainda mais delicada e pouco abordada.

Percebam, a criança faz parte de um núcleo familiar e seu desejo de pertencimento faz com que pouco a pouco, ela molde suas características conforme sua vivência. Não somos uma ilha, a criança também não. Somos parte de um todo, e lá no todo que as crianças constroem suas crenças, valores e personalidade.

Ao tempo de crescimento a criança vai a partir das suas experiências com o meio, afastando-se da sua forma originária, que podemos denominar de criança interior. É na criança interna interior que encontramos aquela autencidade tão características, como os sonhos, os medos, inocências e descobertas, que a partir de suas vivências chega a vida adulta.

Assim nesta lógica todos nós adultos somos frutos e reflexos das nossas vivências e memórias do passado.

Mas até que ponto existe a influência dos genitores neste eu? Neste eu socializado que por vezes se afasta do eu originário?

Me remetendo ao Direito das Famílias, o maior impacto na vida da criança e em especial na criança interior, que poderíamos denominar como uma das definições de violência, ataques e ou interferências, tais quais, que ante a incapacidade de compreensão e reação às imposições do mundo adulto, surge o sofrimento.

Essa ação Dr. James Hollis assim descreveu “Por não possuir o poder de escolher outras circunstâncias de vida, por não possuir nem a objetividade da natureza do problema como o outro, e por não possuir elementos necessários a uma experiência comparativa, a criança reage de forma defensiva, tornando-se excessivamente sensível ao ambiente e escolhendo a passividade, a dependência ou a compulsividade para proteger seu frágil território psíquico” (Obra “A Passagem do Meio”).

Tal importância desta ação que a psicologia, denomina como “feridas psíquicas”, em comparação aos ferimentos físicos.

Quando em um conflito familiar, e acredito que quase sem pensar, como se fosse um reflexo, os pais verbalizam suas insatisfações e utilizam-se da criança como justificativa, colocando-os no posicionamento de triangularização. No qual a criança é o sintoma, mas não a causa.

Pode-se notar que “a causa” advém deles mesmos: pais. Da incapacidade de lidar com suas próprias frustações e talvez também tenham em determinado momento induzidos a se afastarem de sua própria criança interior. Existe uma dor.

Contudo, nenhuma demanda jurídica familiar, tem a capacidade de curar feridas psíquicas, nem mesmo tem o poder de evitá-las.

Assim na afirmação de Jung a vida vivida pelos pais recai sobre a criança de inúmeras maneiras. Se os pais não conseguem retirar-se de um relacionamento de forma sadia, não conseguem curar suas próprias dores, impondo muitas vezes à criança em um lar de brigas, de chantagens emocionais e no local de meio das questões conjugais, não será um processo judicial que elucidará e trará a paz de volta.

É preciso olhar para sua própria criança, pesar a vida vivida, entender o que espera pelo por vir.

E assim livre para viver a vida que escolheu, liberar a criança para ser simplesmente o que deve ser, livre e autentica, crescendo de modo saudável, especialmente de sua psique.

A vida tem nos convidado a olhar cada vez mais pra nós mesmos, começando por dentro.